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DA LITERATURA AO FILME: ELEMENTOS DE TRANSCRIAÇÃO EM O INVASOR.

Jan 1, 2011 · 1 author · 8 topics

Abstract

This article is a reflection upon the artistic conception of the film The Trespasser (2001), directed by Beto Brant. The study focuses on the strategies found by the director and his film crew during the process of transcriation of the written language (novel and screenplay) to the cinematographic language. The analysis procedures are seated in the exclusives interviews that I made with the director of the film, Beto Brant, the writer and scriptwriter Marçal Aquino, the scriptwriter and producer Renato Ciasca and the rapper Sabotage, actor and style consultant. As Beto Brant affirms, the process of the screenplay transformation begins in the set during the contact with the film crew. In The Trespasser we can find countless situations in that the contribution of the film crew was decisive for the final result of the film. Key-words Beto Brant; The Tresspaser; screenplay; Brazilian Cinema A Literatura Em 1997, o escritor Marçal Aquino inicia o desenvolvimento da novela O Invasor. Nesse período, Aquino estava muito voltado às questões relativas à violência no Brasil, tema, aliás, recorrente em sua literatura. Motivado por essa questão a história de O Invasor foi se desenhando, uma novela em que os personagens são de universos distintos, periferia e centro, e utilizam-se dos mesmos métodos inescrupulosos para resolver seus problemas cotidianos. Marçal Aquino trabalhou em O Invasor até o quarto capítulo, interrompendo-o em novembro de 1997, quando então iniciou o desenvolvimento do roteiro do filme, a pedido de Beto Brant. Com O Invasor, Marçal Aquino vivencia dois momentos distintos em seu processo de criação, o trabalho como escritor 3 e como roteirista. No universo da literatura, Aquino diz não possuir nenhum método, para ele “é um território do desconhecido” (Brum, 2003, p. 117). No caso da criação de um roteiro, instrumento para realização de um filme, Marçal Aquino, diferente do que acredita ser o seu processo de criação na literatura, considera-o um espaço de criação em que é necessário ter domínio da história. O seu trabalho como roteirista está ligado diretamente ao que o cineasta quer fazer e tem o objetivo de criar as condições necessárias para que o filme aconteça. Um processo que é construído a partir da concepção do diretor, dos caminhos que ele quer seguir, da maneira como quer contar a história que pretende filmar. Mais do que uma questão de método de trabalho, como apontou Marçal Aquino, o processo de criação de O Invasor deixa de ser um projeto pessoal para se transformar em um projeto coletivo. Agora os rumos da história de O Invasor vão ser definidos por Marçal Aquino, Beto Brant e Renato Ciasca. O trabalho, antes solitário, em que Aquino possuía total liberdade de condução da história, passa a ser um trabalho de equipe. Da Novela ao Roteiro A novela O Invasor possui 15 capítulos e foi escrita na primeira pessoa através do personagem Ivan. Do ponto de vista temático, O Invasor possui uma trama que nos prende do início ao fim. Dois sócios de uma empresa de construção civil (Ivan e Alaor) se desentendem com um terceiro sócio (Estevão) e resolvem o problema contratando um matador profissional (Anísio) para eliminá-lo. O homem contratado para realizar o serviço sujo resolve tirar proveito da situação e participar da vida dos dois sócios. Ivan, incomodado com a presença de Anísio, vive um intensa crise de consciência. A novela traz em seu texto alguns elementos que sustentam, mais facilmente que no roteiro, o processo intenso de paranóia vivida por Ivan. Como exemplo podemos citar a relação de Ivan com sua esposa Cecília há muito desgastada com o tempo. Na novela podemos acompanhar a falência do casamento dos dois, e entender o motivo que leva Ivan a ter uma amante e se apaixonar por ela. Já no roteiro, duas cenas apontam para esta situação de crise conjugal, sendo que uma delas vem acompanhada da inquietação de Ivan frente ao desaparecimento do sócio. Neste sentido, o envolvimento de Ivan com Cláudia, sua amante, perde motivação no roteiro. Outro bom exemplo presente na novela e que não está no roteiro é o fato de Ivan ter tido um pai suicida, o que o torna ainda mais desencorajado diante da vida. Este elemento da narrativa na novela é importante por acentuar o desânimo de Ivan perante a vida. Ivan é um fraco como o pai. Pequenas situações, lembranças que ele vai narrando, e que constituem um desenho mais aprimorado de sua personalidade. Na novela, o personagem Ivan pode ser trabalhado com mais cuidado, vai crescendo de capítulo a capítulo. No caso do roteiro, não há tempo para desenvolver o personagem com mais precisão. O primeiro capítulo da novela trata da contratação de Anísio por Alaor (o Gilberto no roteiro) e Ivan. Eles se encontram em um bar na periferia. Ivan conduz a conversa, apesar de Anísio ter sido indicado por um amigo de Alaor e de o mesmo ter dado a idéia de matar Estevão. São dez páginas de impressões e detalhes descritos por Ivan. Este mesmo capítulo se transforma na cena de abertura do roteiro, só que no roteiro toda a situação de contratação de Anísio é conduzida por Gilberto (Alaor). Ivan fica o tempo inteiro calado e demonstra certo incômodo com toda aquela situação. Outro elemento importante nesta cena é o próprio Anísio, que, na narrativa da novela, é apresentado por Ivan. Na novela, Ivan descreve suas características físicas, já no roteiro temos a indicação de que não se deve mostrá-lo ao espectador. Esta diferença de condução da novela para o roteiro foi uma estratégia encontrada pelos autores para dar relevo e dramaticidade a Ivan logo nas primeiras cenas. No desenvolvimento do roteiro é necessário ser mais cuidadoso na condução do personagem para que ele não demore a se mostrar, o que acarretaria o risco de não ser compreendido pelo espectador em suas ações futuras. Limitações típicas do formato de um roteiro, sanadas pelos autores na medida em que colocam Ivan, desde o primeiro momento, numa posição incômoda e desconfortável em relação à decisão de matar Estevão. Mas estes elementos descritos que enriquecem a personalidade de Ivan são, como diz Beto Brant, o que distingue a linguagem literária de Marçal Aquino para o que ele faz em cinema. Diz Brant: O Marçal consegue num parágrafo posicionar o personagem em três tempos diferentes, em lugares distintos, ele tem essa habilidade de abrir pastas e concluir. Você consegue ter na literatura uma profundidade psicológica do personagem, com a história dele, dando pequenos episódios que constituem a pessoa dele no presente. No roteiro não dá, pois se você ficar abrindo pastas, você vira um esquizofrênico. Fica disperso.... (Brum, 2003, p. 112) Diferenças que se encontram na essência de cada obra de arte e dos elementos que as distinguem. Apesar do roteiro utilizar o instrumental literário, ele é, em sua natureza, apenas uma etapa da construção do filme. O roteiro é escrito com o único objetivo de se transformar em filme, ele descreve cenas, diálogos, elementos que são estruturados de forma a contar uma história através de imagens. No roteiro as palavras são concebidas a partir da imaginação daquilo que se quer filmar. As imagens, que estão na cabeça do roteirista, se transformam em palavras. A constatação de Beto Brant em relação ao seu trabalho, e ao do amigo, está intimamente ligada às distinções estruturais entre o cinema e a literatura. O Roteiro O processo de transcriação 4 da novela para o roteiro não encontrou muitas dificuldades durante o percurso. Para Marçal Aquino a história, em sua essência, já estava plenamente concebida quando iniciaram o desenvolvimento do roteiro. Para o escritor, a filosofia de vida de Alaor, o Gilberto no roteiro e filme, apresentada a Ivan no quarto capítulo do livro é o que vai conduzir o restante da história. Marçal Aquino se refere ao seguinte diálogo: No fundo, esse povo quer o seu carro, Ivan, Alaor disse. Querem o seu cargo, o seu dinheiro, as suas roupas. Querem comer a sua mulher, entendeu? É isso que nós vamos fazer com Estevão: vamos aproveitar a nossa oportunidade antes que ele faça primeiro.(Aquino, 2001, p.47) Ao compararmos com as cenas de número 01 a 24 do roteiro, que representam os quatro capítulos da novela que Aquino já tinha escrito quando iniciaram o roteiro, podemos perceber que os diálogos foram transcritos com muita precisão do livro para o roteiro. Essa facilidade parece estar na maneira como Marçal Aquino escreve, sua linguagem é colada na realidade, como ele próprio diz: “eu gosto muito da rua, a minha literatura vem da rua...a mágica vem dali...”(Brum, 2003, p.174). Durante o ano de 1998, Marçal Aquino, Beto Brant e Renato Ciasca concluíram o primeiro tratamento do roteiro. Em 1999 o roteiro foi selecionado para participar do laboratório do Instituto Sundance, ocorrido na cidade do Rio de Janeiro. Neste laboratório o roteiro de O Invasor foi discutido entre os participantes, entre eles roteiristas norte-americanos convidados para o evento, visando a melhorá-lo do ponto de vista narrativo. De acordo com Marçal Aquino houve muita incompreensão por parte dos norte-americanos em relação ao roteiro e o laboratório acabou não servindo como parâmetro para possíveis modificações no mesmo. Para Aquino, os participantes tinham uma visão muito ligada ao estilo hollywoodiano e por este motivo não compreendiam o encaminhamento da trama. O roteiro de O Invasor não se acomoda dentro das características do cinema clássico, modelo predominante em Hollywood, na qual é facilmente detectável a presença de um protagonista, necessidade dramática, antagonista, obstáculos, pontos de virada, etc. O Invasor se guia pela figura de Ivan, um personagem perturbado que se apresenta dessa forma do início ao fim do filme. A origem desta perturbação não está em um incidente claramente identificado ao longo da história, mas em uma série de infortúnios em sua vida pessoal e profissional. Ivan não sabe exatamente o que quer, ou seja, não possui uma necessidade dramática clara, vaga sem rumo pelas ruas de São Paulo. No momento em que resolve se entregar à polícia, o que poderia significar uma resolução parcial dos problemas vividos por ele, para nossa surpresa, a polícia também faz parte do esquema montado por Gilberto. O filme termina com uma situação de impasse, Gilberto e Ivan são colocados frente à frente pela polícia e o final fica em aberto para que o espectador tire suas próprias conclusões, outro elemento da estrutura narrativa que difere completamente dos roteiros clássicos que sempre encontram um final conclusivo para suas histórias, sem que nenhuma trama fique em suspenso. Elementos do Roteiro O roteiro de O Invasor tem 108 cenas. Apesar de contar com a participação do diretor no processo de escrita, o roteiro não é decupado, somente algumas cenas possuem indicações de câmera. Estas cenas apontam uma preocupação dos autores com aquilo que consideram ser os elementos chaves da narrativa que criarão o clima da história. Uma dessas cenas é a primeira do roteiro, que relata a contratação de Anísio para matar uma pessoa que ainda não sabemos quem é. Temos a indicação de que não se deve mostrar, ao espectador, o rosto do matador que está sendo contratado, o que gera um suspense. Esse suspense ganha importância na história, pois é justamente a presença deste homem na trama que vai intensificar os conflitos entre os personagens Ivan e Gilberto e, mais do que isso, dar nome ao filme, Anísio é O Invasor. Outra cena que possui indicação de câmera é a de número 47 do roteiro, cena em que Anísio aparece visualmente pela primeira vez. A aparição de Anísio na construtora cria uma tensão entre os sócios e, em nós espectadores, que aguardamos a invasão deste personagem.

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Authors

Alessandra Souza Melett Brum

Topics

Literature, Culture, and CriticismCultural, Media, and Literary StudiesLinguistics and Education ResearchDA LITERATURA AO FILME: ELEMENTOS DE TRANSCRIAÇÃO EM OINVASOR.Alessandra BrumResumo Este artigo é uma reflexão sobre a concepção artística do filme O Invasor (2001), dirigido pelo cineasta Beto Brant. Este estudo privilegia as estratégias encontradas pelo diretor e equipe ao realizar a transcriação da linguagem escrita (novela e roteiro) para a linguagem cinematográfica. Os procedimentos de análise estão assentados nas entrevistas exclusivas que realizei com o diretor do filme, Beto Brant, com o escritor e roteirista Marçal Aquino, o roteirista e produtor Renato Ciasca e o rapper Sabotage, ator e consultor de estilo. Como o próprio Beto Brant afirma, o roteiro começa a se modificar no set de filmagem em contato com a equipe. Em O Invasor podemos encontrar inúmeras situações em que a contribuição da equipe tenha sido decisiva no resultado final do filme.Palavras-chave Beto Brant; O Invasor; Roteiro; Cinema Brasileiro.

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PublishedJan 1, 2011
TypeArticle
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